sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Noite Âmbar




Sem sustento
minhas raízes se alastram
tateando cada solo
que ceda ao meu abraço.
Contorço-me como um tronco
quase seco do Cerrado.
Não vegeto quando há chuva
Me protejo toda em âmbar
resinada, abro-me ao céu
- meio seco, meio nublado -
da noite que não tem lua.


LARAMARAL – 27/11/2009
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Inconscientemente


 Tela de Frida Kahlo

Sei que devo me calar
principalmente
quando me censura com esse olhar
fico muda e grito em versos
roucos
tolos
revoltos
e você só olha e ri
porque incessantemente
transpiro raiva, choro à toa
chuto o balde e até suas partes baixas
ai de quem me mandar ficar calada
pois conscientemente
sou inconsequente
e um dia por mês morro
no outro ressuscito
em seguida o sangue desce
e até a próxima TPM
Você ainda insiste em dizer
"Vê se cresce!"
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Cinzas


Tela de Johannes Vermeer

Sem coragem de dizer pessoalmente
O motivo de ir embora
Que nem mesmo ele sabia ao certo
Deixou-lhe apenas uma carta
Como se isso, para os dois, fosse encarte
Do cd de suas canções preferidas
Ou diploma que envaidece
Pendurado na sala de estar

A covardia personificada numa folha
Tornou-se simplesmente
Alimento para a lareira
Que ardia ultimamente amena
Observada pelos olhos dela
– Reflexos hipnóticos que assistiam –
Ao pedaço de papel sendo digerido
– restos mortais de algo, outrora infinito.
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Buquê


Foto do filme A noiva cadáver


Passadas a ansiedade e
As lágrimas da entrada
A marcha inicial foi tocada
Os beijos selaram o ato incerto
Feito por encomenda cerimonial.


Os aplausos cessaram e a atenção
Mais uma vez está a sua volta
Respira fundo, o que ela fez?
Um juramento, uma prova...
Mas a maior de todas
Ainda está por vir.


Fecha os olhos
Pensa na direção em que vai jogar
Um, dois, três e foi...
Foi-se o “sim”, a fantasia e o buquê.


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Bichinhos de chuva



Debatem-se contra a minha janela
Durante a noite toda
Irritam-me, impedem-me o sono
Com o tremular insistente
De suas frágeis asas.

Querem entrar em busca de luz
Apesar da curta vida
Só o que buscam é se aquecer.
E não é o que buscam todos
Desapercebidos por aí?

A chuva passa, deixa vestígios
Para mim ela os deixa
Mortos no parapeito, entre os trilhos...

...Quando de manhã abro os vidros
Penso que lutaram em vão
Em busca de um calor aqui de dentro
Que nem para mim foi suficiente.
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Som da natureza


Isadora Duncan, bailarina



Se ela pudesse, dançaria ao som daquele piano, só porque ele a toca e a transforma naquela em que sempre quis ser. Como se a música, não satisfeita de untar sonatas a lembranças esvaídas, a fizesse sonolenta para que ela se recorde da última canção em que sonhou. Entretanto, quantos sonhos vêm quebrantados, relembrando pesadelos de discos arranhados e ritmos descompassados... e isso ela faz de tudo para esquecer, acorda com papel e caneta ao lado e se apressa em criar a partitura que a atice para uma nova dança. Se ela pudesse, tocaria e dançaria ao som da própria música, sem deixá-la morrer, pois se ela resolve pausar, que seja uma colcheia, não há colchete que a remende, o staccato vai fundo no peito e ela se interna no destino demente de uma bailarina quase estática de caixinha de música... contra essa inércia ela move harpas, violoncelos e flautas transversais que copiam os redemoinhos de seu corpo, o qual se embala facilmente quando os holofotes estão nela. Ela faz com que o êxtase dos sonhos acorde, a inspire, a renove, porque quando a natureza sopra sua canção, ela só quer ser toda ouvidos.
LARAMARAL


“Bandolins” – Oswaldo Montenegro



"Como fosse um par

Que nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos bandolins


E como não?
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim


Seu colo e como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim


Ela teimou
E enfrentou o mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins..."

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Quebra-cabeça

Era incrível, ele picotava as cartas e ela colava
Ele rasgava as roupas e ela costurava
Impressionantemente, ele tudo fez
Para desmanchar seus batons, suas jóias, suas saias
E de tanto ele quebrar louças, janelas e espelhos
Nela rachou algo “irremendável”.
Desesperado sem saber como se fazia
Tentou juntá-la em pequenas peças
Mas no desenho formado ficou faltando
Uma bem no meio, do lado esquerdo
E para preencher singelo espaço
Ele se pôs numa peça torta, desfigurada
Foi a única que conseguiu formar
Dos pedaços em que se partiu.
LARAMARAL


"Acrilic on canvas" - Legião Urbana


"É saudade, então
E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez
Os traços copiei do que não aconteceu
As cores que escolhi entre as tintas que inventei
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três
Trabalhei você em luz e sombra"


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Autopiedade


Tela de Edward Munch


Na partida só se lembrou
Da vida mal vivida
Dos relances, restaram
Fatos desencapados
Eletrocutando sua ferida.
A saída estava nas mãos
De quem pudesse julgá-la
Como a ingênua, a sofrida
Bem intencionada
E mal interpretada.
Mas só conseguiam se lembrar
Da sua morbidez
De sua palavra que saía fácil
Desprevenida
Fazendo os outros entenderem
Que era um mal que queria dizer
Mas era apenas o seu jeito
Sem freios de se entreter.
Recebia, então, de resposta
Verbos rasgados
E até alguns períodos nominais
Que com tão pouco a deixavam
Suicida, pouco sagaz
Só conseguia balbuciar
“Não era isso que eu queria
Perdoa-me, meu rapaz”
De nada adiantava
Com as letras era pouco capaz.
Ai dela, tendo de depender
Da opinião alheia, pouco amiga
Sua reputação valeria tanto
Quanto sua presença
Despercebida.


terça-feira, 29 de setembro de 2009

Duas Vidas

A criança dentro de mim
Vez ou outra aparece
Me prega peças


Me pune, me cobra, me desafia
Me faz sentir tola
E entrar na sua dança de menina


Me pergunta onde estão os sonhos
As paixões, todos aqueles planos
Por que estou na contramão?


Só sei dizer que o carro quebrou
Antes de eu conseguir
Tentar outra direção.


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Arrogância


Tanta "geniosidade" não enxerga:
o que tanto esnoba é o que mais teme
pouco humilde, na soberba
se atola e se espreme.

Sem dosagem, quando quer
na sua rude ilusão
vira onça, roda a baiana
há de quem não der atenção!

Divide tanto tempo com muito ócio
- visão de sapiência distorcida -
o resultado é torpe e quanto resto!
Falta tato, sobra ego à mal agradecida.

Seu mundo, uma redoma de vidro,
não sabe que quebra?
Seu sonho é o que se possa comprar,
será que ela se entrega?
Não de alma, só de corpo
a volúpia ocupa o que seria
a falta de um colo...

Pelo seu reflexo, à narciso,
a paixão doentia.
O que será de um ser
que se extasia ao pisar
quem ao seu lado esteve um dia?
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