sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Buquê


Foto do filme A noiva cadáver


Passadas a ansiedade e
As lágrimas da entrada
A marcha inicial foi tocada
Os beijos selaram o ato incerto
Feito por encomenda cerimonial.


Os aplausos cessaram e a atenção
Mais uma vez está a sua volta
Respira fundo, o que ela fez?
Um juramento, uma prova...
Mas a maior de todas
Ainda está por vir.


Fecha os olhos
Pensa na direção em que vai jogar
Um, dois, três e foi...
Foi-se o “sim”, a fantasia e o buquê.


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Bichinhos de chuva



Debatem-se contra a minha janela
Durante a noite toda
Irritam-me, impedem-me o sono
Com o tremular insistente
De suas frágeis asas.

Querem entrar em busca de luz
Apesar da curta vida
Só o que buscam é se aquecer.
E não é o que buscam todos
Desapercebidos por aí?

A chuva passa, deixa vestígios
Para mim ela os deixa
Mortos no parapeito, entre os trilhos...

...Quando de manhã abro os vidros
Penso que lutaram em vão
Em busca de um calor aqui de dentro
Que nem para mim foi suficiente.
.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Som da natureza


Isadora Duncan


Se ela pudesse, dançaria ao som daquele piano, só porque ele a toca e a transforma naquela em que sempre quis ser. Como se a música, não satisfeita de untar sonatas a lembranças esvaídas, a fizesse sonolenta para que ela se recorde da última canção em que sonhou. Entretanto, quantos sonhos vêm quebrantados, relembrando pesadelos de discos arranhados e ritmos descompassados... e isso ela faz de tudo para esquecer, acorda com papel e caneta ao lado e se apressa em criar a partitura que a atice para uma nova dança. Se ela pudesse, tocaria e dançaria ao som da própria música, sem deixá-la morrer, pois se ela resolve pausar, que seja uma colcheia, não há colchete que a remende, o staccato vai fundo no peito e ela se interna no destino demente de uma bailarina quase estática de caixinha de música... contra essa inércia ela move harpas, violoncelos e flautas transversais que copiam os redemoinhos de seu corpo, o qual se embala facilmente quando os holofotes estão nela. Ela faz com que o êxtase dos sonhos acorde, a inspire, a renove, porque quando a natureza sopra sua canção, ela só quer ser toda ouvidos.
LARAMARAL


“Bandolins” – Oswaldo Montenegro



"Como fosse um par
Que nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos bandolins

E como não?
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim

Seu colo e como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim

Ela teimou
E enfrentou o mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins..."

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Quebra-cabeça

Era incrível, ele picotava as cartas e ela colava
Ele rasgava as roupas e ela costurava
Impressionantemente, ele tudo fez
Para desmanchar seus batons, suas jóias, suas saias
E de tanto ele quebrar louças, janelas e espelhos
Nela rachou algo “irremendável”.
Desesperado sem saber como se fazia
Tentou juntá-la em pequenas peças
Mas no desenho formado ficou faltando
Uma bem no meio, do lado esquerdo
E para preencher singelo espaço
Ele se pôs numa peça torta, desfigurada
Foi a única que conseguiu formar
Dos pedaços em que se partiu.
LARAMARAL


"Acrilic on canvas" - Legião Urbana


"É saudade, então
E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez
Os traços copiei do que não aconteceu
As cores que escolhi entre as tintas que inventei
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três
Trabalhei você em luz e sombra"


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Autopiedade


Edward Munch


Na partida só se lembrou
Da vida mal vivida
Dos relances, restaram
Fatos desencapados
Eletrocutando sua ferida.
A saída estava nas mãos
De quem pudesse julgá-la
Como a ingênua, a sofrida
Bem intencionada
E mal interpretada.
Mas só conseguiam se lembrar
Da sua morbidez
De sua palavra que saía fácil
Desprevenida
Fazendo os outros entenderem
Que era um mal que queria dizer
Mas era apenas o seu jeito
Sem freios de se entreter.
Recebia, então, de resposta
Verbos rasgados
E até alguns períodos nominais
Que com tão pouco a deixavam
Suicida, pouco sagaz
Só conseguia balbuciar
“Não era isso que eu queria
Perdoa-me, meu rapaz”
De nada adiantava
Com as letras era pouco capaz.
Ai dela, tendo de depender
Da opinião alheia, pouco amiga
Sua reputação valeria tanto
Quanto sua presença
Despercebida.


terça-feira, 29 de setembro de 2009

Duas Vidas

A criança dentro de mim
Vez ou outra aparece
Me prega peças


Me pune, me cobra, me desafia
Me faz sentir tola
E entrar na sua dança de menina


Me pergunta onde estão os sonhos
As paixões, todos aqueles planos
Por que estou na contramão?


Só sei dizer que o carro quebrou
Antes de eu conseguir
Tentar outra direção.


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Arrogância


Tanta "geniosidade" não enxerga:
o que tanto esnoba é o que mais teme
pouco humilde, na soberba
se atola e se espreme.

Sem dosagem, quando quer
na sua rude ilusão
vira onça, roda a baiana
há de quem não der atenção!

Divide tanto tempo com muito ócio
- visão de sapiência distorcida -
o resultado é torpe e quanto resto!
Falta tato, sobra ego à mal agradecida.

Seu mundo, uma redoma de vidro,
não sabe que quebra?
Seu sonho é o que se possa comprar,
será que ela se entrega?
Não de alma, só de corpo
a volúpia ocupa o que seria
a falta de um colo...

Pelo seu reflexo, à narciso,
a paixão doentia.
O que será de um ser
que se extasia ao pisar
quem ao seu lado esteve um dia?
.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Encoberto


O poeta se esconde
finge que não é com ele
seu verso é cauteloso -
medo de alguém reparar -
aprofundar no seu eu.
Então ele vai devagar
escreve, apaga, relê
vê se não transpareceu nada
resume para nem ele entender
caso tenha deixado algo passar...
Receoso, põe o ponto final.
"Será que vão saber
o meu verdadeiro motivo
de escrever?"
Ele acha que não
mesmo assim
exclui o trecho que fala de amor
se explica em demasia
mas apesar da cautela
o sentimento é inerente
E transborda em toda poesia.


sábado, 5 de setembro de 2009

Ciclo vicioso


Edward Munch

A ansiedade me faz um favor
me tira você
que só me irrita a mente.
Porém, faceira
me tira a calma, a paciência
e o sono.
Ela sela um acordo
ou eu durmo ou eu morro
de vontade de sumir.
Como não há, nem um, nem outro
mesmo que eu torça, que eu reze
ela continua engordando
às minhas custas
que vou definhando...
E peço, "dá uma trégua, amiga"
que pouco misericordiosa
só ri, "você quis assim".
Mas ela se aproveitou
da vontade que eu tive
de ter um tempo só
de esquecimento...
E agora, como escrava, me arrasto
ela vai na frente, rebolando
enquanto minhas olheiras
a acompanham, afundando...
LARAMARAL


sábado, 22 de agosto de 2009

Confuso Público

Os dedos batem freneticamente contra as carteiras
Tosses e espirros para disfarçar a tensão
Um bocejo se mistura ao suor
À preguiça, à exaustão.


Os olhos marejados não leem mais os textos
Só observam os cabelos, as expressões dos concorrentes
O relógio de parede proibido e inexistente na sala
Ainda faz tic-tac em minha cabeça, junto ao biológico.


Não há pista, não há cola, não há objetos metálicos
A caneta transparente de tinta preta me observa
Já agoniada, esperando meu veredicto
Querendo me dizer “também não sei”.


A inspiração de nada adianta
Ler novamente só aumenta a dúvida
A respiração profunda não abranda
O examinador me encara com feiúra
E como só permitem olhar pra cima
A qualquer santo, anjo eu suplico
Deus, eu mereço este fardo?
Nesta questão é certo ou errado?

Lara Amaral


"Pessoas geométricas, planejadas
Bebem a secura e vomitam suicídio
Gabinetes e vidas encaixadas
Num desenho lógico de olhares sem sentido
A estabilidade é tão sensata
Pois impede o homem de viver a sua vida
E se um dia olhar para trás e não ver nada
É porque o plano de saúde não cobriu o sacrifício.
Das páginas que nunca foram escritas
É o medo que consome os ideais."



Música: Daniel Kirjner