Os dedos batem freneticamente contra as carteiras
Tosses e espirros para disfarçar a tensão
Um bocejo se mistura ao suor
À preguiça, à exaustão.
Os olhos marejados não leem mais os textos
Só observam os cabelos, as expressões dos concorrentes
O relógio de parede proibido e inexistente na sala
Ainda faz tic-tac em minha cabeça, junto ao biológico.
Não há pista, não há cola, não há objetos metálicos
A caneta transparente de tinta preta me observa
Já agoniada, esperando meu veredicto
Querendo me dizer “também não sei”.
A inspiração de nada adianta
Ler novamente só aumenta a dúvida
A respiração profunda não abranda
O examinador me encara com feiúra
E como só permitem olhar pra cima
A qualquer santo, anjo eu suplico
Deus, eu mereço este fardo?
Nesta questão é certo ou errado?
Lara Amaral
"Pessoas geométricas, planejadas
Bebem a secura e vomitam suicídio
Gabinetes e vidas encaixadas
Num desenho lógico de olhares sem sentido
A estabilidade é tão sensata
Pois impede o homem de viver a sua vida
E se um dia olhar para trás e não ver nada
É porque o plano de saúde não cobriu o sacrifício.
Das páginas que nunca foram escritas
É o medo que consome os ideais."
Música: Daniel Kirjner